Artigos dos bispos

Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo (RS)

Jesus, logo após ensinar o caminho da vida feliz ou bem-aventurada, afirma que ser cristão é ser sal da terra e luz do mundo (Isaías 58,7-10, Salmo 111, 1 Coríntios 2,1-5 e Mateus 5,13-16). Duas imagens que ressaltam o testemunho da vida de serviço ao mundo. É neste serviço que se concretiza a identidade do cristão: luz e sal da terra, como o próprio Cristo o foi. 

A primeira imagem usada por Jesus para definir a identidade do discípulo é o sal. O sal é familiar em todas as culturas. Sempre foi usado para dar sabor à comida e conservar os alimentos. Na cultura bíblica o sal também significava sabedoria. Nas línguas latinas os vocábulos sabor, saber, sabedoria pertencem à mesma raiz semântica. 

O sal sendo um protagonista peculiar na culinária, se torna um símbolo muito interessante e rico para expressar a missão do seguidor de Jesus no meio da sociedade. O sal na comida fica invisível, mas sua ausência não pode ser dissimulada. O sal dissolve-se completamente nos alimentos e lhes dá sabor. Essa é sua condição: passar despercebido, mas atuar eficazmente. 

É uma bela maneira de descrever a tarefa do cristão: ser sal da terra, sal humilde, derretido, saboroso, que atua desde dentro, que não se nota, mas é indispensável. Jesus adverte: “ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos?” Quimicamente é impossível o sal perder o sabor. O sal não pode não salgar. O risco está no discípulo de Cristo que pode perder a capacidade de dar sabor de amor, esperança, fraternidade e paz ao mundo. 

A segunda imagem usada para descrever a identidade do cristão é “ser luz do mundo”. O simbolismo da luz percorre toda a Escritura. No primeiro dia da criação Deus disse: “Haja luz, e houve luz” (Gn 1,3); no caminho do êxodo uma coluna de fogo guiou o povo de Deus pelo deserto; o messias anunciado pelos profetas será uma luz. Cristo de apresenta a si mesmo como: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, não caminha na escuridão, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). 

Quem crê em Jesus se converte em luz para si e para os outros. Assim como o sal não pode não salgar, do mesmo modo a luz não pode não iluminar. Na celebração do batismo o Círio Pascal, símbolo do Cristo ressuscitado, é apresentado ao neobatizado e lhe é dito: “Recebe a luz de Cristo”. A seguir se acende nele a vela, seguida da exortação: “Querida criança, foste iluminada por Cristo para te tornares luz do mundo. Com a ajuda de teus pais e padrinhos caminha como filho(a) da luz”. 

Como cristãos podemos nos tornar insossos e colocar a luz debaixo de uma vasilha, como alertou Jesus. O profeta Isaías e a Carta de Paulo ao Coríntios apontam duas tentações que desvirtuam a identidade do cristão. A primeira é reduzir a vida cristã a práticas religiosas. Por isso, o profeta Isaías ressalta a importância e o efeito da caridade. “Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à tua frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá”. O Catecismo da Igreja Católica ensina que identidade do católico se manifesta: na profissão da fé; na celebração dos mistérios da fé, principalmente os sacramentos; na vivência dos mandamentos e na retidão moral; e na vida de oração.  

A segunda tentação é querer ser cristão segundo a mentalidade humana, isto é, querer ser sal e luz de forma ostensiva, agressiva, com marketing, com eficácia e produtividade. São Paulo, depois de alguns fracassos pessoais, aprendeu a lição. Quando vai evangelizar em Corinto age de conforme o ensinamento de Jesus: “Quando fui à vossa cidade anunciar-vos o mistério de Deus, não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana. Pois, entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado. Aliás, eu estive junto de vós, com fraqueza e receio, e muito tremor. Também minha palavra não tinha nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens”.  

 

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

Celebramos, neste dia 2 de fevereiro, a Festa da Apresentação do Senhor e, por ocasião dessa festa, unimo-nos em oração pela vida dos religiosos e consagrados. Os religiosos e consagrados são como a luz das velas que acendemos no dia de hoje: iluminam a vida dos fiéis e rezam pelo Papa, pelos bispos, sacerdotes, seminaristas e pelas demais necessidades da Igreja. 

Já rezamos pelos consagrados e religiosos no terceiro domingo de agosto, dentro da perspectiva do mês vocacional, mas, no dia da Apresentação do Senhor, também somos convidados a rezar de modo especial. A presença dos religiosos anima a Igreja e encoraja a todos nós a nos consagrarmos ao Senhor de todo o coração. A beleza da Igreja reflete-se na vida consagrada. Rezemos para que não faltem vocacionados e vocacionadas com o desejo de ingressar em uma congregação religiosa. 

Rezemos pelas diversas congregações presentes em nossas comunidades com suas vidas e obras. Em muitas paróquias, os religiosos são responsáveis pela animação pastoral; em outras comunidades, atuam como catequistas, ministros da Palavra, ministros extraordinários da Sagrada Comunhão e em tantos outros serviços prestados à comunidade. Que, por meio desta festa de hoje, se fortaleça o espírito de unidade na Igreja. 

Cada congregação religiosa possui sua missão e seu carisma específicos e, por meio deles, aproxima as pessoas de Deus e leva o amor de Jesus. Realizam a missão em nome da Igreja e vivem e anunciam que todos são um.  

Toda vocação é sinal do amor de Deus; é um chamado do Senhor ao qual respondemos com alegria por meio do nosso “sim”. Independentemente de ser vocação religiosa ou não, qualquer carisma enriquece a Igreja. É por meio das vocações que a missão da Igreja de anunciar Jesus Cristo e edificar o Reino de Deus aqui na terra continua. 

Este dia especial de oração pela vida consagrada e religiosa foi instituído com o objetivo de valorizar o testemunho de tantas pessoas jovens, moças e rapazes, que, por meio dos conselhos evangélicos da pobreza, castidade e obediência, se dedicam plenamente ao seguimento de Cristo. Como destacava o saudoso Papa São João Paulo II, trata-se também de uma ocasião para que os consagrados renovem seus propósitos e votos e se fortaleçam no chamado que receberam, aproveitando este dia para, diante do Senhor, renovarem os votos de pobreza, castidade e obediência feitos no dia de sua consagração. É também um dia de alegria, de confraternização e de fortalecimento do sentido de pertença à comunidade. 

Conforme já dissemos, esta celebração é um convite à reflexão sobre os rumos da vida religiosa no mundo, rezando ao Senhor da messe e pedindo mais operários para a messe, pois a missão não pode parar. É, antes de tudo, um dia de oração: em primeiro lugar, agradecendo ao Senhor pela presença dos religiosos na Igreja; em segundo, pedindo mais vocações e a perseverança daqueles que foram chamados. Por isso, essa celebração convida a Igreja a reconhecer a importância de todas as formas de vida consagrada: Institutos Religiosos, Sociedades de Vida Apostólica, Institutos Seculares, Ordem das Virgens, eremitas, entre outros. 

Esta celebração foi escolhida para um dia muito significativo, em que a Igreja celebra a Festa da Apresentação do Senhor. Peçamos a graça de Deus para que todos os religiosos e religiosas, neste dia, se apresentem diante do Senhor e renovem o compromisso de amar e servir os irmãos. E que cada batizado e batizada possa ir ao encontro do Senhor com suas velas acesas. 

Segue abaixo a oração que podemos rezar neste dia por todos os religiosos, religiosas e consagrados, pedindo a perseverança em suas vocações e a total entrega ao Senhor, bem como o surgimento de novas vocações. 

Oração pelos consagrados 

Deus Pai, que iluminastes o mundo com a vinda do vosso amado Filho e que enriqueceis a vossa Igreja com diversos carismas e ministérios, olhai por todos os que desejam dedicar-se ao vosso Reino. Enviai muitas e santas vocações à vida consagrada, despertando no coração dos nossos jovens o desejo de se entregarem totalmente a Vós. Renovai, pela força do vosso Santo Espírito, o ardor missionário dos consagrados e consagradas que se comprometeram convosco por meio dos votos de pobreza, castidade e obediência, nas diversas formas de vida e apostolado. Que continuem iluminando o mundo com o seu testemunho de vida, sendo sinais de amor e esperança no serviço aos irmãos e irmãs, sobretudo aos mais necessitados. Maria, modelo de vida consagrada e companheira de nossa caminhada, amparai, protegei e animai os consagrados e consagradas, para que, inspirados no vosso exemplo, renovem hoje e sempre, com alegria e entusiasmo, o seu “sim” a Deus.  

Amém! 

 

 

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)

“A falta de habitação, é uma questão central da ecologia humana, pois afeta a dignidade das pessoas e o desenvolvimento das familias” LS 152, Papa Francisco

 

A Campanha da Fraternidade 2026 terá como tema Fraternidade e Moradia, iluminada pelo texto evangélico: “ Ele veio morar entre nós” (Jo ,14). O objetivo central focalizará dentro do espírito de coversão quaresmal, a necessidade de responder ao grave desafio social de fazer acontecer e garantir o direito à moradia digna, junto aos demais bens e serviços essenciais a toda população.  

Os objetivos específicos aprofundando o olhar vão trazer a consideração, as raízes históricas e as causas de moradia precária ou mesmo a carência de teto que faz sofrer a milhões de brasileiros.  

A falta de políticas públicas sistemáticas e eficientes e iniciativas da sociedade civil para promover soluções de habitação popular digna e decente para os que carecem de teto. O conhecimento e aplicação transformadora do ensino social da Igreja para fazer valer o lema: “nenhuma família sem teto, trabalho e terra”.  

O fortalecimento das pastorais sociais em especial da Pastoral da Moradia e das Favelas intensificando a presença e o compromisso social libertador que envolve, evangeliza e empodera aos excluídos.  

Junto aos movimentos sociais, ambientais, a sociedade civil como um todo, que consigamos inspirar e lutar pela aprovação de leis municipais, estaduais e federais que impulsionem a construção de moradias populares, garantindo o direito de ser cidade para todos(as).  

É impottante como afirma Fábio Paes Coordenador da Revista Casa comum, que sem lar não há Casa Comum, que empenhar-se em efetivar direito à moradia digna do povo, é defender a Terra, o equilíbrio ambiental e a saúde do planeta pois não há ecologia integral, sem ecologia humana, sem proteger a família e seu desenvolvimento.  

O direito à moradia é a entrada de todos os direitos, a política social prioritária e fundamental, uma vez que sem ela não teremos uma cidade justa, fraterna e equitativa. Torna-se necessário nesta caminhada de conversão quaresmal que nos leva amar ao próximo com ternura e compaixão, comprometer-nos a nível pessoal, comunitário e social com os irmãos/ãs que carecem de habitação, moradia digna, espaço para conviver como família.  

Neste ano de eleições nacionais, coloquemos este tema como critério de escolha e discernimento do nosso voto. Seguindo a Jesus o Bom Pastor que veio para que todos tenham vida em abundância e que armou sua tenda no meio de nós, tornemos o nosso coração a casa e o lar dos pobres, dos sem teto, dos refugiados, dos que vivem debaixo das pontes ou em lugares precários e inóspitos. Deus seja louvado!