Artigos dos bispos

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 Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

 

 

Reunimo-nos nesta solenidade em torno do altar não como uma comunidade local isolada, focada unicamente nas próprias necessidades, mas como membros vivos do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja Católica Apostólica Romana. A liturgia e a vida da Igreja nos convidam a realizar um gesto concreto de amor, comunhão e solidariedade: a coleta do Óbolo de São Pedro. Muitos ouvem esse nome e imaginam tratar-se de um imposto eclesiástico, de uma taxa obrigatória ou de uma simples arrecadação financeira para cobrir despesas burocráticas do Vaticano. No entanto, o Óbolo de São Pedro carrega um significado teológico e espiritual profundíssimo que remonta às raízes da nossa fé. Ele representa a união inquebrável de cada católico com o Sucessor de Pedro e o nosso compromisso ativo com as necessidades dos mais pobres e das igrejas que sofrem perseguição e miséria em todo o mundo. 

Para compreendermos a raiz e a beleza dessa tradição, precisamos abrir os Atos dos Apóstolos (At 4,32-35) e observar com atenção como a primeira geração de cristãos vivia. São Lucas relata com clareza que “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma”. Eles não consideravam suas propriedades como algo exclusivamente seu. Movidos pelo fogo do Espírito Santo e pela urgência do Evangelho, eles vendiam terras e casas e depositavam o valor arrecadado aos pés dos apóstolos. Observem a força desse gesto. Eles não distribuíam o dinheiro de forma autônoma, isolada ou desordenada. Eles entregavam os recursos à autoridade apostólica, para que Pedro e os outros apóstolos administrassem e distribuíssem conforme a necessidade de cada um, garantindo que não houvesse necessitados entre eles. O Óbolo de São Pedro prolonga exatamente essa dinâmica da Igreja primitiva nos dias de hoje. Quando depositamos a nossa oferta nesta coleta, nós estamos, em espírito, colocando os nossos bens aos pés do sucessor de Pedro, o Papa, confiando na sua paternidade espiritual para socorrer as feridas abertas da humanidade. 

A palavra “óbolo” significa originalmente uma moeda de pequeno valor. Esse nome nos remete diretamente a uma lição evangélica essencial que Jesus Cristo nos deixou. O Evangelho de São Marcos (Mc 12,41-44) nos relata o momento exato em que Jesus se senta diante do cofre do Templo e observa as pessoas depositando as suas ofertas. Muitos ricos depositavam grandes quantias e faziam questão de demonstrar o seu poderio econômico, mas tiravam daquilo que lhes sobrava. O sacrifício deles era ilusório. De repente, aproxima-se uma viúva pobre. Ela deposita duas pequenas moedas, que valiam muito pouco financeiramente. Jesus imediatamente chama os seus discípulos e profere um ensinamento que subverte de forma radical a lógica da matemática humana: “Esta pobre viúva deu mais do que todos os outros. Pois todos deram do que lhes sobrava; ela, porém, da sua pobreza, deu tudo o que possuía, tudo o que tinha para viver”. 

Cristo nos ensina que o céu não mede a quantidade do dinheiro, mas mede a quantidade do amor e o tamanho do sacrifício. A viúva entregou a sua própria subsistência nas mãos de Deus. Ela confiou cegamente que o Senhor providenciaria o seu sustento. O Óbolo de São Pedro baseia-se exatamente nessa oferta corajosa da viúva. A Igreja não exige de você cifras exorbitantes que destruam o orçamento da sua família. A Igreja convida você a dar algo que lhe custe, algo que represente um verdadeiro ato de amor e de desapego. Um pequeno sacrifício feito por milhões de católicos em todo o mundo transforma-se em um oceano de misericórdia capaz de lavar a dor de multidões. O Apóstolo Paulo nos ensina na Segunda Carta aos Coríntios (2Cor 9,7): “Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria”. Não oferte com tristeza, nem entregue o seu óbolo como quem paga uma fatura. Oferte com a alegria genuína de quem sabe que participa diretamente da missão salvífica de Cristo. 

O mundo atual sangra através de inúmeras feridas, e muitas delas não aparecem nos noticiários. Nós assistimos diariamente ao rastro de destruição deixado por guerras implacáveis, desastres naturais e secas severas. O Papa, como pastor universal que recebeu de Cristo as chaves do Reino e o mandato de apascentar as ovelhas, escuta o clamor dos que sofrem em lugares esquecidos pelas grandes potências. Ele recebe os apelos de dioceses na África que não possuem recursos mínimos para formar os seus seminaristas. Ele ouve o choro de cristãos no Oriente Médio que perdem suas casas, suas famílias e suas vidas simplesmente porque se recusam a renegar o nome de Jesus Cristo. Ele acolhe as vítimas de terremotos e inundações que perdem absolutamente tudo da noite para o dia. O Santo Padre não pode responder a essas tragédias gigantescas apenas com discursos diplomáticos ou palavras de consolo. Ele responde com ações concretas, enviando ajuda humanitária urgente, financiando a construção de hospitais, mantendo orfanatos e reerguendo escolas. 

No entanto, o Papa só consegue estender as mãos aos mais pobres porque a Igreja inteira sustenta os seus braços. O Óbolo de São Pedro forma o fundo de caridade pessoal do Sucessor de Pedro. Ao participarmos dessa coleta com o nosso suor e com o fruto do nosso trabalho, nós nos tornamos as mãos do Papa tocando a carne sofredora de Cristo nos nossos irmãos mais distantes e desamparados. Além do socorro direto às vítimas das tragédias globais, esta coleta possui uma finalidade vital para a estrutura da Igreja: ela ajuda a sustentar as instituições que auxiliam o Papa na sua árdua missão de guiar o rebanho católico. O Santo Padre precisa de dicastérios, tribunais e nunciaturas apostólicas para levar a voz do Evangelho a todos os cantos da terra, para defender a vida humana desde a concepção até a morte natural e para lutar pela dignidade da família contra as ideologias do nosso tempo. Sustentar o ministério do Sucessor de Pedro significa fortalecer a voz da verdade no mundo. Quando a sociedade laicista tenta silenciar a Igreja e apagar a moral cristã, a nossa generosidade garante que a barca de Pedro continue navegando com firmeza, ensinando a doutrina de Cristo sem ceder às pressões covardes do mundo secularizado. 

Nós vivemos em uma cultura doente que nos empurra constantemente para o egoísmo, para o individualismo e para o consumismo. O mundo grita a plenos pulmões que precisamos acumular, guardar e reter riquezas para garantir uma falsa segurança futura. O Evangelho, pelo contrário, nos garante com autoridade divina que a verdadeira segurança não reside nos bens materiais que acumulamos nos bancos, mas na caridade viva que praticamos na terra. Tudo o que retemos de forma egoísta para nós mesmos, um dia perece. Tudo o que entregamos a Deus, através das mãos calejadas dos pobres, transforma-se imediatamente em um tesouro inesgotável no céu, onde a traça não corrói e o ladrão não rouba. 

Neste domingo, Jesus desafia a nossa fé e nos convida a vencer o medo da escassez. Ele nos chama a ampliar a nossa visão e a enxergar além das paredes confortáveis da nossa própria paróquia. Ao contribuirmos com o Óbolo de São Pedro, nós reafirmamos a nossa identidade católica e a nossa obediência filial. Nós declaramos publicamente, através do nosso bolso, que reconhecemos no Bispo de Roma a pedra sobre a qual Cristo edificou a Sua Igreja invencível. Nós dizemos ao Santo Padre, através do nosso óbolo: “Santidade, o senhor não carrega essa cruz sozinho. Nós caminhamos com o senhor, nós rezamos pelo senhor e nós dividimos o nosso pão com os miseráveis que o senhor abraça”. 

Aproximemo-nos dessa coleta com o coração largo, livre e generoso daquela viúva do Evangelho. Sejamos generosos em colaborar com a solicitude pastoral do amado Papa Leão XIV. Não fechemos as mãos diante da dor excruciante do mundo. Que cada pequena moeda, cada sacrifício oculto, cada renúncia invisível se transforme no fogo da caridade concreta. Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, e os gloriosos apóstolos Pedro e Paulo intercedam pelas nossas famílias e recompensem cem vezes mais, com graças espirituais e materiais, cada ato de generosidade que praticarmos hoje. Confiemos de forma absoluta na providência de Deus, abracem a missão da nossa amada Igreja Universal e ajudem o Sucessor de Pedro a espalhar a luz libertadora de Cristo em meio às trevas da humanidade.  

 

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)

 

Uma das características mais originais da Encíclica Magnifica Humanitas é sua opção metodológica. Antes de abordar diretamente a inteligência artificial e a revolução digital, o Papa Leão XIV dedica os dois primeiros capítulos a uma exposição sistemática da Doutrina Social da Igreja. Essa escolha revela que os desafios da inteligência artificial não podem ser compreendidos apenas por critérios técnicos ou econômicos, mas exigem um discernimento ético e antropológico iluminado pela fé. 

Ao concluir, no primeiro capítulo, a exposição histórica da Doutrina Social da Igreja, o Papa afirma: «E a este núcleo essencial – os grandes princípios da Doutrina social orientadores do discernimento dos cristãos na vida pessoal e pública – que desejo agora dirigir a atenção, a fim de compreender melhor a sua coerência interna e a sua fecunda força para o nosso tempo» (MH 45). Em seguida, esclarece que esses princípios ajudam a interpretar as “coisas novas” do nosso tempo à luz da dignidade da pessoa humana (MH 46). 

No segundo capítulo, o Papa apresenta os fundamentos da Doutrina Social da Igreja. O ponto de partida é a dignidade da pessoa humana, criada à imagem do Deus Trinitário (MH 47-57). Essa dignidade possui caráter ontológico, é inerente a cada ser humano e não depende da utilidade, da produtividade, da eficiência ou das capacidades intelectuais da pessoa. Essa afirmação é muito relevante numa época em que pessoas e relações tendem a ser avaliadas segundo critérios de desempenho e utilidade. 

A partir desse fundamento antropológico, Leão XIV apresenta os cinco grandes princípios da Doutrina Social da Igreja: o bem comum (MH 58-62), a destinação universal dos bens (MH 63-66), a subsidiariedade (MH 67-71), a solidariedade (MH 72-76) e a justiça social (MH 77-80). O Papa insiste que esses princípios devem ser considerados conjuntamente, pois se complementam e iluminam mutuamente (MH 46) e tornam-se critérios concretos para avaliar a revolução digital.  

Ao tratar da inteligência artificial, o Papa não parte de critérios meramente técnicos, econômicos ou funcionais, mas dos fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja. Diante da crescente concentração de poder no ambiente digital, ele reafirma que «os grandes princípios da Doutrina social tornam-se critérios para avaliar e discernir o novo cenário» (MH 96). A questão decisiva deixa de ser apenas o que a inteligência artificial pode fazer e passa a ser se ela respeita a dignidade da pessoa humana, promove o bem comum e favorece uma sociedade mais justa e fraterna. 

Nessa perspectiva, à luz dos princípios do bem comum, da destinação universal dos bens e da subsidiariedade, o Papa adverte que a propriedade e o controle dos dados não podem permanecer exclusivamente sob o domínio de agentes privados ou de grandes corporações tecnológicas, mas requerem formas adequadas de regulamentação orientadas ao benefício de toda a sociedade (MH 108). Por isso, defende mecanismos que garantam uma participação mais ampla nos benefícios da revolução tecnológica, especialmente em favor dos grupos mais vulneráveis e frequentemente descartados (MH 109). 

Magnifica Humanitas oferece uma contribuição decisiva ao debate sobre a inteligência artificial ao mostrar que seus desafios não são apenas tecnológicos, mas também morais, sociais e antropológicos. Por isso, antes de perguntar o que as máquinas podem fazer, a Encíclica convida a refletir sobre quem é a pessoa humana e qual sociedade desejamos construir. 

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN) 

 

O próprio título da Encíclica Magnifica Humanitas (MH) constitui uma de suas principais chaves de leitura. Embora trate amplamente da inteligência artificial e da revolução digital, o Papa Leão XIV não escolheu um título centrado na tecnologia, mas na pessoa humana. Poderia, por exemplo, tê-la intitulado “sobre a inteligência artificial”, “sobre a revolução digital” ou “sobre a tecnologia”. Em vez disso, preferiu falar da “Magnífica Humanidade”. A escolha não é casual. Ela revela que a questão central do documento não é tecnológica, mas antropológica. 

Desde a introdução da Magnifica Humanitas, Leão XIV afirma que a humanidade se encontra diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova Babel ou construir uma cidade onde Deus e a humanidade habitem juntos (MH 1.7-10). Por isso, a questão fundamental não é simplesmente o que a tecnologia é capaz de fazer, mas que tipo de humanidade estamos construindo por meio dela. Citando São João Paulo II, o Papa retoma uma pergunta decisiva para o discernimento ético do progresso: os avanços tecnológicos tornam a vida humana verdadeiramente mais humana e mais digna do homem? (MH 129). 

A pertinência dessa pergunta torna-se ainda mais evidente diante das correntes culturais que acompanham a revolução digital. Leão XIV analisa criticamente o transumanismo e o pós-humanismo, perspectivas que tendem a interpretar o progresso como uma superação da própria condição humana. Enquanto o transumanismo propõe o aperfeiçoamento indefinido do ser humano por meio da tecnologia, buscando superar seus limites biológicos, físicos e cognitivos, o pós-humanismo relativiza a singularidade da pessoa humana, diluindo as fronteiras entre homem, máquina e natureza (MH 120-128). Em ambos os casos, corre-se o risco de considerar a humanidade como uma realidade insuficiente que necessita ser corrigida, substituída ou superada. 

É precisamente diante dessas perspectivas que o título Magnifica Humanitas assume sua força profética. Leão XIV recorda que a humanidade não é um projeto fracassado à espera de aperfeiçoamento tecnológico, mas uma realidade magnífica criada por Deus e plenamente revelada em Jesus Cristo. O mistério do homem, afirma o Papa logo no início da Encíclica, somente se esclarece plenamente no mistério do Verbo encarnado (MH 1). Por isso, proclama com vigor: «Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos» (MH 15). A expressão “permanecer profundamente humanos” sintetiza todo o programa da Encíclica. Salvaguardar o humano significa proteger aquilo que nenhuma máquina poderá substituir: a liberdade, a consciência moral, a capacidade de amar, a abertura à transcendência, a responsabilidade ética e a vocação à comunhão com Deus e com os irmãos (cf. MH 11-15; 124-129). 

Essa mesma preocupação reaparece na Mensagem para o 60° Dia Mundial das Comunicações Sociais, na qual Leão XIV observa que o desafio da inteligência artificial não é simplesmente tecnológico, mas antropológico. O problema principal não está nas máquinas, mas na forma como elas podem influenciar a compreensão que temos de nós mesmos e das nossas relações. A inteligência artificial não modifica apenas os instrumentos da comunicação; ela pode afetar nossa percepção da realidade, nossa capacidade de discernimento crítico, nossa liberdade interior e até mesmo a autenticidade dos vínculos humanos. 

A resposta do Papa não é a rejeição da ciência ou da técnica. Pelo contrário, ele afirma que o humanismo cristão acolhe ambas «com gratidão e realismo» (MH 129), reconhecendo sua contribuição para a medicina, a educação, a pesquisa científica e o desenvolvimento dos povos (MH 97-100). Contudo, adverte que a técnica deve permanecer a serviço da pessoa humana e do bem comum, sem jamais transformar-se no critério último para definir a identidade, a dignidade ou a vocação do ser humano. 

A originalidade da Magnifica Humanitas reside precisamente nesta convicção: a grande questão do século XXI não é tecnológica, mas antropológica. O futuro da humanidade dependerá menos da potência dos algoritmos e mais da capacidade de preservar a dignidade da pessoa humana. Em Cristo, a humanidade já encontrou sua forma mais elevada e mais bela. Por isso, diante das promessas e dos riscos da inteligência artificial, a tarefa mais urgente continua sendo permanecer profundamente humanos (MH 15).